Este é um trabalho produzido pelo professor Aderaldo Luciano nos seus tempos de graduação para a disciplina Literatura Portuguesa 3. Vai aqui como material de consulta e roteiro para a leitura do romance de Carlos de Oliveira. Nada foi mexido ou atualizado, com seus equívocos e esquecimentos.
APRESENTAÇÃO
A disciplina Literatura Portuguesa III, oferecida na grade curricular obrigatória do Curso de Licenciatura Plena em Letras da UFPB, estuda as vanguardas literárias em Portugal. A partir do Simbolismo mergulha-se na vida e na obra de autores como Antonio Nobre, Camilo Pessanha, Florbela Espanca, entre outros.
Discussão de textos críticos e literários foram a tônica da disciplina. A avaliação constou de um primeiro trabalho em que se aprofundou a obra de Camilo Pessanha, cujo objeto foi o poema Estátua, da sua coletânea Clepsidra; um seminário com tema a escolher (no nosso caso, Fernando Pessoa e seu heterônimo Ricardo Reis) e uma monografia como trabalho final sobre o romance Casa na duna de Carlos de Oliveira.
O romance Casa na duna é uma daquelas obras que nunca se esquece e que se lê de um único fôlego. Rica, mas fragmentada, passeia por um mundo decadente e cada capítulo como que se pode ler separadamente, `a semelhança de Vidas secas do nosso Graciliano Ramos. A luta de uma família onde os homens avizinham-se da desgraça e das psicopatologias é o tema central do romance.
Observando vagarosamente a construção de Carlos de Oliveira observamos a presença constante da tradição oral da Peninsula Ibérica nas entrelinhas do romance. Assim é que desfilam tipos e acontecimentos perdidos no tempo, aparecendo muitas vezes apenas para atenuar a força da trama sem ter vínculo mais forte com o desenrolar do tema norteador da narração.
Resolvemos pois analisar um capítulo do romance que, ao que nos parece, se insere naquela categoria de narrativa popular, remontando à mitologia greco-romana, passando pelo período de formação da literatura romana, em seu teatro, e que desembocou no Nordeste brasileiro. Nos debruçamos ainda e mais pausadamente sobre a fala de um dos personagens. Uma afirmativa carregada de teor teológico e ideológico que fecha o capítulo estudado. Acreditamos que, assim, tenhamos cumprido as exigências do curso, no que tange ao seu processo avaliativo.
INTRODUÇÃO
No ano de 1929 uma crise financeira mundial abalava as estruturas sociais, ameaçava ordens políticas, derrubava estados e consolidava outros. A quebra da Bolsa de Nova York foi o ponto culminante dessa crise. O olho do furacão que provocaria mudanças radicais no que viria a ser o mundo ocidental.
Mudanças já haviam ocorrido no mapa político do mundo desde o final da Primeira Guerra. Um novo pensamento se forjava no seio da Alemanha, que viria a ser o III Reich, com consequências até hoje sentidas. Na Itália um Duce era fomentado. A França perdia soberania sobre algumas de suas colônias africanas. O mundo fervia, enfim.
Uma das heranças desse período é o que passou a chamar-se Terceiro Mundo. Outros acrescentam uma fatia denominada de países do Sul, aqueles onde impera a miséria e a perspectiva de melhorias é zero. Por outro lado apareceu o bloco socialista capitaneado pela União Soviética, com Stálin implantando a suposta ditadura do proletariado, mas governando com mão de ferro, a partir do todo poderoso Partido Comunista.
Um surto de crescimento industrial, em etapas cíclicas, marcaria três revoluções industrias: a do vapor, a dos motores elétricos e a explosão e uma tímida, mas promissora, revolução da informática, que engatinhava. Acontecia uma corrida rumo à tecnologia e os países periféricos sucumbiam sob suas ditaduras.
As ciências buscavam caminhos definitivos e outras ciências surgiam. Seguem-se Einstein, revolucionando a física, Freud aventa a Psicanálise, uma ciência da linguagem, a Linguística, vem tomando lugar desde 1916 com Saussure, a Filosofia abre caminho para o pensamento existencialista e a Sociologia se depara com a crescente aceitação e irradiação do marxismo.
A revolução nas artes nos trazia o abstracionismo, representação do que não conseguíamos enxergar embora visualizássemos, na música inicia-se uma quebra do modo europeu de compor. Outras artes se incorporam como cinema, a televisão e o vídeo, em fase de gestação. Como podemos observar em qualquer livro de história comprometido com a verdade dos fatos acontecidos, sem passionalidade, o período pós-29 é fervoroso em avanços ideológicos, retrocessos políticos, revalorização de técnicas e busca de novas.
Perguntamos: e a Literatura, como se comportava? Construindo um breve e incompleto histórico tentaremos sintetizar o que se passava. Entre os anos de 1919 e 1929 o que determinou-se de realismo social havia sido eclipsado pelas vanguardas. Esse realismo era a base de oposição ao arcaico pensamento romântico e seus seguidos desencantos e ao mesmo tempo a tentativa de absorção dos valores sociais vigentes.
A partir de 29 parece haver um retorno a esse modo de pensar a literatura. No Brasil aparece o romance social de 30 com Lins do Rego, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz e Jorge Amado, citando os do nordeste, que influenciaram o aparecimento em Portugal da escola Neo-realista.
A escola neo-realista portuguesa, forjada na ditadura militar de 1926, caminharia pelo regime autoritário levado a cabo em 1933. Portugal sofria as influências da crise de 29, da nazificação da Alemanha, da Guerra Civil espanhola e adentra a guerra de 1939-1945. Este período alimenta aquela escola literária, que bebe nas fontes utópicas ou científicas do marxismo. Mas o que acontecera antes?
Entre 1914 e 1918, a cidade de Lisboa foi palco de um movimento estético pós-simbolista que passou a ser conhecido nos compêndios como a geração de Orpheu. Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Almada-Negreiros, Santa-Rita Pintor e outros se conjuraram com revistas literárias, cujo maior título sem sombra de dúvidas foi a que emprestou o nome a geração e que durou apenas dois números financiados por Sá-Carneiro: Orpheu. Esse grupo formava o pensamento localizado, era o pensamento da capital, lisboeta.
É a revista presença, editada em Coimbra em 1927 que vai delinear o pensamento neo-realista e de certa forma se opor ao pensamento de Orpheu. Dessa geração citamos José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga, João Gaspar Simões, dentre outros. Daí em diante vem com mais firmeza o ressurgimento do realismo social com Ferreira de Castro, cabeça da tradição sindicalista.
Como já observamos o neo-realismo português se concretiza a partir de 1929 e se consolida durante a década de 30, alavancado pela crise econômica de 29 e pelo movimento de resistência democrática. Tendo como característica principal dar um novo enfoque a realidade portuguesa, providenciando um novo olhar, agora crítico, sobre o elitismo acadêmico.
Alves Redol, Sidónio Muralha, José Gomes Ferreira. Fernando Namora são alguns nomes alicerçadores da nova escola. Mas é sobre o nome de Carlos de Oliveira e o seu romance Casa na Duna que nos debruçaremos e tentaremos ler, como foi dito na apresentação, um capítulo e uma fala particular de um personagem.
O AUTOR E A OBRA
Nascido a 10 de agosto de 1921 em Belém do Pará, Carlos de Oliveira inicia-se na literatura com a coletãnea de poemas Turismo em 1941, já com tendências neo-realistas claras. Suas poesia estão reunidas no volume Trabalho poético de 1976, uma coleção de todos os seus livros lançados anteriormente. Além dos quais escreveu romances: Casa na Duna (1943), Alcatéia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma abelha na Chuva (1953) e Finis Terra (1978). Um volume de crônicas encerra sua obra: Aprendiz de Feiticeiro (1971). Faleceu em 1º de julho de 1981, em Lisboa.
Nas pesquisas realizadas para a confecção deste trabalho, deparei-me com crítica encomiástica á obra de Carlos de Oliveira. Classificações como: “… a poesia de Carlos de Oliveira se inicia convulsa… rebeldia indignada… o poeta não consegue ocultar a emoção… íntimo estremecimento lírico… é das mais importantes do neo-realismo…” ou sobre sua prosa: “… o narrador desdenha os nexos formais do tempo… parcimônia de episódios e de atritos dramáticos… é patente sua originalidade…” Gostaria de romper com tais observações e assertar que nenhuma página crítica é maior do que a obra em si. Não podemos nos assenhorar do que já foi escrito sobre autor ou obra determinados se não o conhecermos na intimidade ou se não folhearmos a sua obra.
Daí chego ao ponto em que prefiro deixar de lado o biografismo o os aspectos gerais do conjunto da obra de Carlos de Oliveira e me detenho naquilo que de fato conheço dele: o romance Casa na duna e o livro de crônicas O aprendiz de feiticeiro, este me servindo de subsídio para compreender aquele. Para tal cito Octávio Paz: O escritor não tem biografia.
O ROMANCE CASA NA DUNA
Em vinte e nove capítulos o romance Casa na duna conta a triste história dos Paulo, família decadente, que amealhou sua riqueza agregando pequenas propriedades circundantes de sua xácara. Ambientada no Portugal rural é fácil ali desfilarem tipos, ou arquetipos, sociais que corroboram o título de romance neo-realista que a obra recebeu. A exploração do homem pelo homem é enfatizada desde o primeiro capítulo quando entra em cena o personagem Lobisomem, trabalhador braçal, que “… parece um toiro.” Lobisomem é o faz tudo da Quinta dos Paulo, animalesco e de força tal chega a levantar a carroça que nem os bois do carro conseguem puxar. Tem um fim típico dos animais domésticos: uma pipa de vinho lhe cai sobre a perna e a esmaga, ficando Lobisomem paralisado e sem forças, encostado de suas funções e vivendo de favor em uma cabana perdida no fundo da Quinta.
Um modelo econômico herdeiro do feudalismo faz com que os Paulo aumentem os hectares de sua Quinta. Aos poucos vão comprando barato as terras dos pequenos proprietários circundantes. Esses preferem trabalhar para alguém do que investir no incerto e lucrar prejuízos. Subjugam-se aos Paulo e até ao fim trágico da Quinta seus descendentes são servos e testemunhas de que a maior fraqueza do homem, a que mais o degrada, é a servilidade.
Relações de comadrio como o casamento arranjado e sonhado entre senhores é outro ponto marcante no estilo neo-realista do romance. O casamento de Mariano Paulo com Conceição de Pina, com sua festa pomposa não reflete a morte de parto com o nascimento de Hilário, tampouco o que virá acontecer entre Mariano e Maria dos Anjos, um concubinato que beira o patético levando a “escrava” a tornar-se senhora e receber convites para dormir do próprio enteado.
A terceira geração dos Paulo é um desastre. Além de desejar a madrasta, Hilário inicia-se sexualmente com uma prostituta e nutre por ela um servilismo sexual que o levará à morte por ciúmes, além do que sua relação com o pai é afetada por ver violado o leito materno com a presença dos gemidos noturnos de Maria dos Anjos nos braços daquele que supostamente jamais trairia o amor primeiro. Isso o envolve de tal maneira que o leva a beirar a insanidade.
A decadência da Quinta e dos Paulo leva Mariano Paulo a pensar diuturnamente em saídas para a crise agravada pela estiagem. Num último recurso empresta dinheiro ao Guimarães e espera receber os fornos de cal em troca da hipoteca e fracassa. Encontra uma saída no barro do fundo da Quinta. Investe na produção de telhas. Passada a euforia, a estrada grande traz preços mais baixos, Mariano mergulha no caos. Num outro momento o Miranda fornece víveres em troca de papéis comprometedores de terra e acaba por herdar a terra de Palmira. Relações capitalistas denunciadas pelo neo-realista narrador de Carlos de Oliveira.
Casa na duna é esse emaranhado de situações e relações que, embora pareçam viver longe, falam alto e nos leva a refletir. A influência social sofrida pelo autor nos flagra tentando entender ou explicar certas situações. Em determinado momento Mariano Paulo e Dr. Seabra em uma vila vizinha se metem num jogo de sedução com uma moça e levantam contra si a ira de um jovem. Tudo termina numa briga colossal onde a culpa é atribuída “… à corja dos fidalgos.” Uma autêntica luta de classes explicitada no Manifesto Comunista de Marx e Engels. Por outra vezes fatos passados como irrelevantes contam histórias tipicamente populares oriundas da tradição oral. Entram nesse rol a história de um ser surgido repentinamente, vestindo farrapos, de cabeça branca, comendo animais vivos e atacando pessoas sem jamais ser agarrado, nem por patrulhas esquadrinhadoras de todo o território. E sumindo da mesma forma que aparece, de repente e do nada.
Num outro momento deparamo-nos com Hilário ainda criança fugindo para os pinhais e se imaginando navegador português imerso num mar bravio, vencendo as ondas gigantescas e conquistando terras de além-mar (metáfora perfeita para o sonho português dos quinhentos), mas despertando do sonho quando já anoitece e as trevas descem sobre a quinta como um dia desceram sobre o Reino português. Mas o que nos interessará de maneira mais detalhada é uma dessas histórias populares de tradição oral encontrada no capítulo dezenove: o ouro encontrado enterrado e a advertência do padre Alípio de S. Caetano contra a cobiça.
HISTÓRIA ANTIGA É HISTÓRIA NOVA
Certa vez, ao rondar o mundo asiático, o deus Dionísio, Baco para os romanos, deu pela ausência do velho Serilo e saiu imediatamente em sua busca. Encontra-o na corte do rei Midas, que o havia acolhido e tratado como se a um dos seus filhos. Diante de tamanha gentileza e bondade, Dionísio agradece o tratamento dedicado a um de seus súditos e em troca oferece ao rei Midas a realização de um desejo. O rei que tinha bom coração mas era tolo pedia o poder de em tudo quanto fosse tocado por seu corpo se transformasse em ouro. O deus, embora reconhecendo a bobagem do pedido e as desgraças oriundas, concedeu e partiu.
A vida de Midas transformou-se e não era para menos. Ao tocar num galho de planta este virou ouro. Correu para casa, ao abrir a porta a maçaneta transformou-se em ouro. Maravilhado com o ocorrido manda preparar um grande banquete, no entanto na hora de alimentar-se o pão que havia pego se transforma em ouro e Midas começa a entender a enorme bobagem pedida. Vai lavar o rosto: a água vira ouro. Passa a mão no rosto e este vira-se em ouro. Midas chora ouro e sai em busca de Dionísio. O deus o escuta e reverte o pedido. Midas fica tão marcado que resolve abandonar todas as riquezas e viver apenas do necessário.
Uma bela história da mitologia greco-romana. Uma página aproveitada pelo mundo capitalista para asseverar que riqueza não traz felicidade. Mas a pergunta seria: seria que realmente a riqueza não traz felicidade? Ou será que não é apenas a maneira como é utilizada que gera dor? A verdade é que o rei Midas no seu desejo louco de possuir todo o ouro do mundo não mediu o poder do ouro sobre o coração dos fracos. Isto fomenta apenas outra discussão. Vamos a outra história.
O mitológico Jasão é encarregado por seu tio de procurar e resgatar um certo Velocino de Ouro. Esse velocino é o pelo dourado de um carneiro que tem poderes mágicos de cura e bem-aventurança para aquele que o possuir. Jasão organiza uma expedição conhecida como a expedição dos Argonautas e parte em busca. Não sabe dos perigos que o esperam. Seu tio, que é rei no trono cujo verdadeiro herdeiro é Jasão espera o fracasso da expedição. Para chegar ao Velocino de Ouro, Jasão perde quase toda a tripulação de sua nau, é aprisionado, naufraga, luta contra gigantes, conseguindo por fim. A história entra por veredas que não nos interessam mais. História simples. Para se chegar a riqueza é necessário muita luta, muito trabalho. História aproveitada pelo capitalismo para nos dizer que o trabalho dignifica o homem. Poderíamos discorrer e catalogar literatura que desmentem ou que embasam tal teoria. Mas a pergunta seria: no mundo capitalista vale a pena trabalhar tanto para acumular riquezas? Ou a utopia abre nossos olhos e nos deixa a duvidar?
Durante os séculos XVII e XVIII corria uma história de que em algum ponto do Novo Mundo existiria um lugar onde o ouro era como areia e a população dessa terra não destinaria o valor que lhe era atribuído pela civilização. Essa terra chamada de El Dorado foi localizada em vários lugares da América. No interior da Amazônia aos Andes peruanos. Na América Central e na Terra do Fogo. Nunca se encontrou essa terra. No entanto a novela Cândido ou o otimismo de Voltaire narra o encontro do El Dorado, situando-o entre o Paraguai e o Suriname. Lá as crianças brincam com bolas de ouro, a areia e formada por pedras preciosas, a fartura é imensurável e as pessoas não pensam em acumular riquezas, portanto o paraíso socialista perfeito.
Como vemos o ouro exerce poderes que não possui, hipnotizando pessoas, construindo e destruindo reinos. Mas uma história popular muito difundida e com variantes em todas as culturas é aquela que narra a história do pobre que enriquece de repente, seja tirando a sorte grande, seja ajudado por forças sobrenaturais ou seja simplesmente encontrando uma panela repleta de ouro e diamantes. Talvez seja Plauto, o comediógrafo romano, vários anos antes de Cristo, o primeiro a utilizar-se da narração popular. Sua comédia Aululária, palavra que vem de olla/pote, nos conta a história de Euclião que encontra um pote de ouro e com extrema avareza passa à neurose com medo de ser roubado ou pelo menos descoberto. A comédia foi sucesso em Roma.
O mesmo tema é reaproveitado por Moliére na comédia O avarento. Aliás é típico dos comediantes criar personagens avarentos pois são caricatos e extremamente tolos. Mas a trajetória do pote de ouro é recontada na Rússia através do conto O tesouro do mujique, coletado por Vladimir Propp: conta que um mujique, espécie de líder religioso da aldeia, escondia seus bens dourados em um baú enterrado no fundo do quintal. O vizinho descobre e se veste de bode, se passa pelo diabo e tenta amedrontar o mujique na esperança de que fuja com medo e na fuga esqueça o tesouro. Porém o mujique não foge e a pele do bode cola no vizinho que vira bode para sempre. Uma variante onde o avarento é punido.
Uma outra variante coletada por Câmara Cascudo conta que um homem encontra um pote de ouro. Ao contar o caso para o vizinho este procura uma maneira de se apropriar do tesouro. A saída é passar-se por uma alma e reclamar a violação do que lhe pertence. O homem assombrado devolve o pote ao lugar onde o havia encontrado. O vizinho que o seguira espera a noite e vai pegar o pote. Quando o abre o ouro tem se transformado em marimbondos. Correndo com o pote joga-o na casa do antigo dono. Quando o pote cai na sala do vizinho os marimbondos se transformam em moedas de ouro. Variante onde o avarento é mais um vez punido.
O volume de crônicas O aprendiz de feiticeiro, de Carlos de Oliveira, o memo autor de Casa na duna, contém uma crônica cujo teor é a coletânea de contos populares feita por ele e José Ferreira Gomes. Nesta crônica são elencados os assuntos de vários desses contos e como se agrupam. De posse desse conhecimento concluo que o Capítulo XIX de Casa na duna é uma variante da história do pote de ouro enterrado e encontrado por um pobre. Vejamos.
Aparece o Tendeiro gritando: “— Estou rico, estou podre de rico, estou milionário”. Ao cavar a terra havia descoberto uma panela cheia de ouro, pulseiras de pedras preciosas, cordões de prata. Esquecera o Tendeiro que trabalhava na terra do Miranda, comerciante e agiota avarento. Miranda adverte que a terra é sua e tudo que nela for encontrado lhe pertence. Resolve presentear quem encontrou o tesouro com apenas uma mancheia. O outro não aceita e reivindica a metade. Miranda não sede. O outro sente-se roubado e pula no pescoço do Miranda sufocando-o até o desmaio. O Tendeiro foge com a mancheia que o Miranda lhe dera. Os outros que acodem o Miranda repartem para si algumas moedas e trazem Miranda de volta a si. Miranda fica com a parte maior, mas todos lucram com o tesouro encontrado.
O narrador não tem crueldade, também não se isenta e deixa que todos provem de um pouco do ouro encontrado. Todos devem repartir a riqueza. Como vemos, mais uma variante. Dessa vez porém, como reza o credo neo-realista, o avarento não é de todo punido, fica com a maior parte do ouro e no decorrer do romance acaba dono de um dos maiores mercados da região.
O ouro tem arrastado pessoas para si por longos anos, séculos. O sentimento movimentado por ele no coração do homem é um sentimento mesquinho e sem escrúpulos. O acúmulo de bens é um mal que tem fendido a humanidade, criado monstros, assassinado inocentes. A cobiça é um dos males mais combatidos pelas religiões mundo a fora. Islâmicos e judaicos, cristãos e budistas, confuncionistas e mórmons, todos pregam com fundamentalismo arraigado a evolução do homem através do desprendimento dos bens materiais, as riquezas, o ouro simbólico, e o cultivo das coisas do espírito. Refletido sobre isso é que o narrador de Casa na duna interfere no final daquele capítulo a fala do Pe. Alípio de São Caetano, numa homilia na igreja de Corrocovo: “— Se houver oiro na terra, deixem-no onde está. Quero almas limpas da cobiça. O verdadeiro oiro é Cristo”. Esta fala não aparece como figurante alegoria. É o assentamento de uma doutrina secular, sobretudo pronunciada por um sacerdote cristão, embaixador da Igreja de Roma. Este o segundo ponto do nosso estudo.
No deserto, logo depois da saída do Egito, o escolhido libertador do povo hebreu Moisés sobe ao monte para conversar com Deus. Por lá se demora e ao retornar flagra um ritual de adoração a um ídolo: um bezerro feito de ouro. A ira de Deus e de Moisés é tanta que a punição para aqueles que encabeçaram o movimento é a marca do fio da espada. Todo o capítulo 32 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento cristão narra essa revolta dos hebreus. Veja-se que o valor atribuído ao ouro perpassa toda a história ocidental e a sua presença corrompe. Pe. Alípio é razoável. Mas de onde virá o dogma de que o verdadeiro ouro é Cristo? Não é judaico pois o Messias judaico não é Jesus de Nazaré. Essa tradição é iniciada quando ao saber que nasceu um rei entre os judeus, Herodes, o tetrarca, degola a espada todas as crianças judias com idade abaixo de dois anos. É bem verdade que a notícia do nascimento desse novo rei é passada a Herodes pelos reis magos que entre os presentes oferecidos ao recém-nascido incluíram o ouro. Ao rei pertence o ouro. No caso de Cristo, o Rei é o próprio ouro e toda a sua doutrina também. Poderíamos ligar ao Rei Midas transformando tudo em ouro ao simples toque de seu corpo. As histórias se entrecruzam, mas não nos afastemos de Cristo e de Pe. Alípio pregando contra o ouro metal.
A admoestação é para se deixar o ouro onde está pois o ouro é metal fomentador da cobiça. O padre prega abraçando passagens bíblicas como Eclesiaste 5.10: “Quem ama o dinheiro jamais dele se farta…” O amor às riquezas não pode ser medido, é um poço sem fim e sem fundo. Ou ainda tenha aprendido com o próprio Cristo que “… não acumuleis para vós tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam”, como está em Mateus 6.19. Os ensinamentos cristãos obrigatoriamente passam por Paulo de Tarso em suas epístolas. São várias as vezes em que o apóstolo exorta contra a riqueza e seus males como nos mostra a primeira carta a Timóteo 6.9-10 : “Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e na perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. Contra a avareza Paulo grita na carta aos Hebreus 13.5: “Seja a vossa vida sem avareza”. O padre Alípio de São Caetano ouviu.
O capitulo XIX de Casa na duna é sem sombra de dúvidas uma variante do conto popular, uma narrativa oral escutada e compilada por Carlos de Oliveira. O aparecimento do Pe. Alípio e sua pregação contra o ouro vem apenas lhe conceder verossimilhança, retratando-a como coisa verdadeiramente acontecida e testemunhada por um narrador neo-realista senhor do deu ofício.
CONCLUINDO
O romance Casa na duna não se prende apenas a mostrar neo-realísticamente a decadência de um clã rural português e suas misérias físicas e morais. É um produto literário fortemente estruturado e realizado. Não fica estagnado em sua proposta ideológica, mas insere-se no que há de melhor na literatura portuguesa.
Trama envolvente, embora com períodos de fragmentação. Relações entre personagens ricas e desenvoltas. O nosso estudo do capítulo XIX é apenas mais um pois o romance abre um leque de possibilidades. Leitura psicológica dos personagens, abordagem marxista, construção sociológica do romance, estudo do material linguístico ou análise do discurso são vias de trabalho a que o texto se oferece.
A leitura que fiz, com suas comparações e aproximações fica apenas como uma página incompleta, além de pretender ser apenas um trabalho superficial, mutilado que foi pelo tempo e pela escassez bibliográfica. Proponho-me a trabalho mais substancial no futuro.
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